Pular para o conteúdo
Terça-feira, 20 de outubro de 2026
Em alta
Economia em Foco

A ⁠Economia do Crime e a confiança nas Instituições ⁠no Brasil

Quando a vítima deixa de confiar nas autoridades e os criminosos escapam da punição, a violência ganha espaço e passa a movimentar bilhões.

Policiais retiram barricada na favela de Paraisópolis em São Paulo
Policiais retiram barricada na favela de Paraisópolis em São Paulo Foto: Paulo Guereta/Governo Estado SP

Outro dia, enquanto contava ⁠a história da Branca de Neve para as minhas duas filhas, a mais velha interrompeu-me e perguntou: "Pai, ⁠por qual motivo ela não voltou para casa e ⁠contou tudo ao pai dela?" Não soube responder. No entanto, a minha perspectiva ⁠como economista fez surgir uma dúvida: ela ⁠achou que fugir era mais seguro do ⁠que pedir ajuda. A questão que coloco ⁠hoje é: quantos brasileiros fazem essa mesma escolha todos os dias?

O IBGE ⁠foi averiguar. De cada dez brasileiros assaltados na rua, quase seis não procuram a polícia. E por qual motivo? Um em cada quatro afirma simplesmente não acreditar na polícia⁠; outro quarto prefere resolver a situação sozinho ⁠ou com terceiros; e um em cada ⁠oito tem medo de sofrer retaliações.

Pense no significado destes dados: o crime que não é registrado não se transforma ⁠em estatística; sem estatística, não há ⁠policiamento; e, sem policiamento, o crime torna-se mais vantajoso para quem o comete.

Essa desconfiança não é uma paranoia. Dados do Instituto Sou da Paz mostram que apenas 36% dos homicídios ocorridos em 2023 tiveram o ⁠seu autor denunciado. Em termos práticos: ⁠de cada três assassinatos no Brasil, dois ⁠permanecem sem resposta. Trata-se de uma piora em relação ao ano anterior, quando o índice era de 39%.

⁠No entanto, nota-se a disparidade regional⁠: o Distrito Federal esclarece 96% ⁠dos casos, enquanto a Bahia registra apenas ⁠13%. Trata-se do mesmo país e do mesmo Código Penal, contudo com resultados sete vezes distintos. Isso não é obra ⁠do destino, é gestão.

Quem ocupa o ⁠espaço deixado pelo Estado? O Fórum ⁠Brasileiro de Segurança Pública calculou que o ⁠crime organizado movimenta cerca de 147 ⁠bilhões de reais por ano no mercado ilegal ⁠de combustíveis, bebidas, ouro, cigarros ⁠e outros produtos. Com a inclusão da ⁠cocaína, esse montante acresce em ⁠15 bilhões. O crime obtém quase ⁠dez vezes mais receitas no setor de combustíveis do que com o tráfico de drogas. Apenas ⁠no segmento de combustível ilegal, o país ⁠perde 23 bilhões de reais em ⁠impostos anualmente, enquanto o empresário honesto ⁠é obrigado a competir com quem não paga ⁠tributos.

Outro estudo colocou tudo ⁠em perspectiva: o crime custa ao ⁠Brasil até 3,9% do PIB ⁠por ano, apenas em custos diretos. ⁠Na América Latina, esse valor equivale a ⁠quase 80% de todo o montante ⁠investido em educação pública. É como se, a cada ano, construíssemos uma escola ⁠e entregássemos a chave ao crime.

⁠A economia do crime traz uma lição antiga⁠: o que mais desestimula o criminoso ⁠não é a severidade da pena, mas ⁠a certeza da punição. Com dois terços ⁠dos homicídios sem resposta, o crime ⁠compensa, e a vítima, de forma racional⁠, prefere refugiar-se na floresta.

⁠Naquela noite, terminei a história com ⁠as minhas filhas e notei um pormenor ⁠em que nunca tinha reparado: a Branca ⁠de Neve não se salvou por sorte; ela sobreviveu porque encontrou quem lhe ⁠abrisse a porta. As instituições representam essa porta. Quando a vítima confia, ⁠denuncia; quando denuncia, o crime é esclarecido; e, quando o crime é esclarecido, deixa de compensar.

Diante disso, pergunto: até quando vamos agir como a Branca de Neve, fugindo da violência e contando apenas com a sorte, em vez de fortalecer as instituições para que cumpram o seu papel?