A Economia do Crime e a confiança nas Instituições no Brasil
Quando a vítima deixa de confiar nas autoridades e os criminosos escapam da punição, a violência ganha espaço e passa a movimentar bilhões.
Outro dia, enquanto contava a história da Branca de Neve para as minhas duas filhas, a mais velha interrompeu-me e perguntou: "Pai, por qual motivo ela não voltou para casa e contou tudo ao pai dela?" Não soube responder. No entanto, a minha perspectiva como economista fez surgir uma dúvida: ela achou que fugir era mais seguro do que pedir ajuda. A questão que coloco hoje é: quantos brasileiros fazem essa mesma escolha todos os dias?
O IBGE foi averiguar. De cada dez brasileiros assaltados na rua, quase seis não procuram a polícia. E por qual motivo? Um em cada quatro afirma simplesmente não acreditar na polícia; outro quarto prefere resolver a situação sozinho ou com terceiros; e um em cada oito tem medo de sofrer retaliações.
Pense no significado destes dados: o crime que não é registrado não se transforma em estatística; sem estatística, não há policiamento; e, sem policiamento, o crime torna-se mais vantajoso para quem o comete.
Essa desconfiança não é uma paranoia. Dados do Instituto Sou da Paz mostram que apenas 36% dos homicídios ocorridos em 2023 tiveram o seu autor denunciado. Em termos práticos: de cada três assassinatos no Brasil, dois permanecem sem resposta. Trata-se de uma piora em relação ao ano anterior, quando o índice era de 39%.
No entanto, nota-se a disparidade regional: o Distrito Federal esclarece 96% dos casos, enquanto a Bahia registra apenas 13%. Trata-se do mesmo país e do mesmo Código Penal, contudo com resultados sete vezes distintos. Isso não é obra do destino, é gestão.
Quem ocupa o espaço deixado pelo Estado? O Fórum Brasileiro de Segurança Pública calculou que o crime organizado movimenta cerca de 147 bilhões de reais por ano no mercado ilegal de combustíveis, bebidas, ouro, cigarros e outros produtos. Com a inclusão da cocaína, esse montante acresce em 15 bilhões. O crime obtém quase dez vezes mais receitas no setor de combustíveis do que com o tráfico de drogas. Apenas no segmento de combustível ilegal, o país perde 23 bilhões de reais em impostos anualmente, enquanto o empresário honesto é obrigado a competir com quem não paga tributos.
Outro estudo colocou tudo em perspectiva: o crime custa ao Brasil até 3,9% do PIB por ano, apenas em custos diretos. Na América Latina, esse valor equivale a quase 80% de todo o montante investido em educação pública. É como se, a cada ano, construíssemos uma escola e entregássemos a chave ao crime.
A economia do crime traz uma lição antiga: o que mais desestimula o criminoso não é a severidade da pena, mas a certeza da punição. Com dois terços dos homicídios sem resposta, o crime compensa, e a vítima, de forma racional, prefere refugiar-se na floresta.
Naquela noite, terminei a história com as minhas filhas e notei um pormenor em que nunca tinha reparado: a Branca de Neve não se salvou por sorte; ela sobreviveu porque encontrou quem lhe abrisse a porta. As instituições representam essa porta. Quando a vítima confia, denuncia; quando denuncia, o crime é esclarecido; e, quando o crime é esclarecido, deixa de compensar.
Diante disso, pergunto: até quando vamos agir como a Branca de Neve, fugindo da violência e contando apenas com a sorte, em vez de fortalecer as instituições para que cumpram o seu papel?




