Argentina de Milei: o custo do combate à inflação e as lições do Brasil
Da crise inflacionária brasileira ao ajuste fiscal argentino, uma análise sobre os sacrifícios necessários para estabilizar a economia e recuperar o crescimento.
No recente debate entre Lula e Bolsonaro, surgiram diversas discussões. Aproveito esta semana para abordar algumas delas, iniciando pela situação da Argentina. Trata-se de uma discussão sobre a condição atual desse país vizinho, que possui grande importância para a economia brasileira.
Antes de tratar especificamente da Argentina, cabe destacar que países submetidos a processos inflacionários elevados normalmente enfrentam causas de longo prazo. Para solucionar esse problema, é necessário adotar diversos remédios amargos, cujos resultados não surgem no curto prazo.
O Caso do Brasil
Pode-se analisar, inclusive, o caso do Brasil. Observando as décadas de 1970 e 1980, o país enfrentou uma grave crise inflacionária decorrente da Crise do Petróleo. Entre 1973 e 1979, ocorreram dois choques no preço do petróleo, fazendo com que a dívida externa brasileira saltasse de US$ 6 bilhões para quase US$ 100 bilhões em um curto intervalo de tempo — entre 1973 e 1982. Ou seja, em dez anos, a dívida cresceu de forma considerável.
Em decorrência disso, o Brasil declarou moratória ("deu um calote") e, na sequência, enfrentou uma elevada inflação. Durante esse período, o país alterou seu padrão monetário sucessivas vezes: Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro e Cruzeiro Real. Em 1994, criou-se o Plano Real, acompanhado de diversas medidas estruturais. Para combater a inflação, o Brasil precisou recorrer a severos ajustes.
Entre 1995 e 1998, a taxa média de juros situou-se em 22% ao ano. Além disso, em 1998, o país recebeu um aporte de US$ 41 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, em 1999, a taxa Selic atingiu o patamar de 45% ao ano. O Brasil levou quase 20 anos em termos de estratégia para solucionar o problema inflacionário.
A Situação da Argentina
Ao analisar a Argentina, nota-se uma conjuntura muito semelhante. O país registrou déficit fiscal em 112 dos últimos 123 anos, sendo recorrente o fato de o gasto público superar a arrecadação. A cobertura desse déficit ocorreu por meio do endividamento, o que gerou redução das reservas internacionais, risco inercial e uma inflação inercial com a qual o país convive até hoje.
Esse cenário resultou em diversos problemas, como o déficit nas contas governamentais e uma inflação que chegou a atingir 200% ao ano. Com a posse de Javier Milei, foram promovidos cortes orçamentários consideráveis.
Como resultado atual, a inflação passou do patamar anterior de 200% ao ano para 33%. O déficit primário deu lugar a um superávit de 1,2%. Em 2024, a taxa de pobreza recuou de 52,9% para 32,3% — nível que ainda é considerado elevado na economia argentina. No ano passado, o país registrou um crescimento recorde do PIB de 4,4% e atualmente conta com reservas internacionais acima do esperado, na casa dos US$ 50 bilhões. Na comparação entre a condição econômica atual e a do momento em que Milei assumiu, observa-se melhora em diversos indicadores.
Desafios para o Futuro
Essa recuperação, contudo, não ocorre de forma linear. É natural que, nos próximos períodos, ocorram oscilações com aumento da pobreza, elevação da inflação ou desdobramentos no déficit fiscal. Afinal, quando se herda um problema inflacionário inercial, a solução não ocorre de forma automática nem por meio de medidas de curto prazo.
É esperada a ocorrência de oscilações, e novas alterações na política econômica serão necessárias para reconduzir a economia argentina ao equilíbrio. Assim, embora o recorte atual aponte uma piora em relação aos indicadores de janeiro, a análise em um horizonte de três anos demonstra uma condição significativamente superior.
A experiência brasileira demonstra que foram necessários 20 anos para superar um problema decorrente de choques externos que levou o país à hiperinflação. A Argentina atravessa situação análoga e, provavelmente, precisará de alguns anos para reestruturar sua economia.




