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Sábado, 17 de outubro de 2026
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Desespero fatal: todas as medidas eleitoreiras que deixaram claro que Lula está com medo

Na reta final, Lula acelera benefícios e promessas em meio à pressão de uma disputa cada vez mais apertada

Lula discursando para metalúrgicos em 1979.
Lula discursando para metalúrgicos em 1979. Foto: Folha de S. Paulo.

Antes mesmo do primeiro turno, o governo Lula já acumulava uma sequência incomum de benefícios, reajustes, linhas de crédito e programas direcionados a grupos específicos da população. Em maio, levantamento da Folha de S.Paulo contabilizava cerca de R$ 144 bilhões em recursos mobilizados por 11 medidas; em setembro, o valor já se aproximava de R$ 200 bilhões. Com Desenrola 3.0, proibição das bets e outras iniciativas, a estimativa chegou a até R$ 215,6 bilhões.

Mas o ritmo mudou depois das urnas. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos, e o segundo turno passou a ser disputado em cenário apertado. Desde então, o governo acrescentou medidas com impacto estimado em dezenas de bilhões de reais e forte alcance popular, ao mesmo tempo em que Lula incorporou novas promessas ao discurso de campanha. Levantamento publicado após o primeiro turno estimou em cerca de R$ 25,8 bilhões o impacto até 2027 somente das novas ações anunciadas nesse período.

Uma das medidas mais relevantes antes do primeiro turno foi o reajuste do Bolsa Família. O benefício mínimo subiu de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro, aumento de pouco mais de 15%, enquanto o benefício médio estimado passou de R$ 675 para R$ 777. O governo justificou a medida como recomposição da inflação acumulada desde 2023. O dado que alimentou as críticas políticas foi justamente o calendário: tratou-se da primeira atualização inflacionária do atual modelo do programa desde sua retomada, e os novos valores começaram a chegar aos beneficiários no mês da eleição.

Também às vésperas do primeiro turno, em 25 de setembro, Lula editou uma medida provisória proibindo em todo o país a exploração e a publicidade das chamadas bets, atingindo apostas esportivas e jogos online. No mesmo dia, outra medida provisória criou o Desenrola Brasil 3.0, uma nova rodada de renegociação de dívidas de pessoas físicas. O governo apresentou as ações como resposta ao endividamento das famílias e aos efeitos sociais das apostas. Politicamente, porém, ambas chegaram exatamente na reta final da primeira votação.

O governo já vinha ampliando benefícios em outras frentes ao longo do ano. Em maio, por exemplo, criou uma linha de até R$ 30 bilhões em crédito com juros favorecidos para motoristas de aplicativos e taxistas comprarem veículos novos. Houve ainda programas de crédito para caminhoneiros, ampliação de instrumentos de renegociação de dívidas, recursos para habitação e outras ações que fizeram o chamado “pacote de bondades” crescer progressivamente durante 2026. A crítica dos opositores não se concentra necessariamente na existência dessas políticas, mas na concentração de anúncios no mesmo ano em que Lula disputava um novo mandato.

Já no segundo turno, a ofensiva ganhou outra velocidade. Em 9 de outubro, o governo zerou temporariamente PIS/Cofins e Cide sobre a gasolina e ampliou subsídios relacionados a combustíveis. O decreto estabeleceu a desoneração entre 10 de outubro e 9 de novembro, atravessando exatamente o período do segundo turno, marcado para 25 de outubro. A justificativa oficial foi conter o impacto da alta internacional do petróleo e proteger o consumidor de um choque externo. Ainda assim, pela proximidade com a votação e pelo impacto direto no preço percebido pelo eleitor, tornou-se uma das principais medidas citadas por críticos como eleitoralmente sensíveis.

Poucos dias depois veio um dos pacotes mais direcionados da reta final: medidas para os mais de 17 milhões de microempreendedores individuais. Lula propôs o perdão de aproximadamente R$ 12,6 bilhões em dívidas de até 3,6 milhões de MEIs, além do chamado PixMEI, com repasses de até R$ 5 mil para investimento no pequeno negócio. O pacote também incluiu mudanças tributárias e elevação gradual do limite de faturamento da categoria. Parte das alterações avançou rapidamente no Congresso, e o Senado aprovou em 15 de outubro o aumento do teto do MEI e o perdão de débitos com a União.

A educação entrou na mesma estratégia. Em 13 de outubro, Lula anunciou que, caso reeleito, criará uma versão universitária do Pé-de-Meia. A proposta prevê R$ 700 mensais durante dez meses do ano e depósitos anuais de R$ 2,5 mil, que poderiam resultar em uma reserva de R$ 10 mil ao fim de um curso de quatro anos. Diferentemente de ações administrativas já em vigor, aqui se trata essencialmente de uma promessa para o próximo mandato, apresentada menos de duas semanas antes da votação decisiva.

O fim da escala 6x1 tornou-se outra bandeira central de Lula. Nesse caso, porém, é preciso fazer uma distinção importante: a proposta não nasceu no segundo turno. A Câmara já havia aprovado a redução da jornada para 40 horas semanais e dois dias de descanso em maio, por ampla maioria. O Senado concluiu a votação apenas em 14 de outubro, no meio do segundo turno, aprovando a PEC por 75 votos a 1. O governo passou então a explorar politicamente uma pauta que já tramitava havia meses e que Lula havia incorporado ao seu discurso.

Um dia depois veio uma proposta que nem sequer constava originalmente do programa registrado por Lula: transporte público gratuito aos fins de semana. Em 15 de outubro, a dez dias da eleição, o presidente anunciou que pretende enviar uma PEC ao Congresso para criar passe livre nacional aos sábados, domingos e feriados. Lula vinculou diretamente a ideia ao fim da escala 6x1 e afirmou que parte do financiamento viria de emendas parlamentares. A proposta havia sido discutida anteriormente pela campanha, mas acabou ficando fora do programa do primeiro turno; agora reapareceu no momento mais decisivo da disputa.

Isso torna a pergunta inevitável: por que agora? Após Flávio terminar o primeiro turno na frente, o governo zerou impostos sobre combustíveis, ampliou benefícios para MEIs, prometeu um novo Pé-de-Meia, transformou o fim da 6x1 em uma das principais bandeiras de campanha e anunciou passe livre aos fins de semana.

É justamente essa combinação que torna 2026 diferente. Antes do primeiro turno, muitas fichas já haviam sido colocadas sobre a mesa: reajuste do Bolsa Família, Desenrola, crédito subsidiado, fim das bets e uma série de programas direcionados. Depois que Flávio Bolsonaro terminou a primeira votação na frente, a frequência dos anúncios aumentou e passou a alcançar, em poucos dias, motoristas, consumidores de combustível, MEIs, estudantes universitários, trabalhadores da escala 6x1 e usuários do transporte público.

A eleição de 25 de outubro decidirá mais do que quem ocupará o Palácio do Planalto. Ela também deixará uma pergunta que continuará relevante depois das urnas: onde termina a política pública legítima de um governo e onde começa o uso eleitoral da máquina por um presidente que disputa a própria permanência no poder?