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Quarta-feira, 21 de outubro de 2026
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Eleições

Lula invoca a fé dos católicos enquanto a esquerda avança para politizar a Igreja

Às vésperas da eleição, carta do petista expõe o esforço da esquerda para conquistar o eleitor religioso, enquanto persiste o debate sobre marxismo e religião.

Foto: Ricardo Stuckert

Às vésperas do segundo turno, Lula decidiu dirigir uma carta aos católicos e pedir que votem motivados pela “verdade”, pelo respeito ao próximo e pela justiça. O apelo soa conveniente vindo de um presidente cuja trajetória política está ligada a um partido que mantém relações históricas com movimentos marxistas e setores da esquerda que procuram reinterpretar a religião a partir de categorias ideológicas.

O problema não está em um candidato dialogar com os cristãos. Está em transformar a fé em instrumento de campanha, invocando valores religiosos quando os votos desse eleitorado se tornam decisivos. A pergunta que os católicos deveriam fazer não é apenas o que Lula escreve em uma carta, mas se as ideias e práticas defendidas por seu campo político são coerentes com a doutrina cristã.

A aproximação entre setores da Igreja e o marxismo não é uma teoria inventada por adversários da esquerda. A própria Congregação para a Doutrina da Fé, então dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 uma instrução alertando para os riscos de correntes da Teologia da Libertação que incorporavam conceitos marxistas sem o necessário discernimento crítico.

O documento reconhecia a legitimidade da preocupação cristã com os pobres e com a injustiça social, mas advertia contra a redução da libertação cristã a um projeto predominantemente político. A crítica central continua pertinente: quando a luta de classes passa a determinar a leitura do Evangelho, existe o risco de a fé deixar de ser o fundamento da ação e virar instrumento de uma agenda ideológica.

A história registra perseguições brutais contra cristãos, desde as perseguições do Império Romano até os regimes totalitários do século XX. Governos comunistas também promoveram repressão religiosa em diferentes países, restringindo a atuação de igrejas, prendendo religiosos e tentando subordinar instituições religiosas ao Estado.

Esse histórico exige vigilância diante de projetos políticos que subordinam a consciência individual a uma ideologia totalizante.

No Brasil, o debate também envolve a liberdade de consciência dentro das próprias comunidades cristãs. Nenhum partido deve ter o direito de transformar púlpitos, paróquias ou comunidades religiosas em extensões de sua campanha eleitoral.

A mensagem de Lula pode citar verdade, justiça e respeito, mas esses princípios não são propriedade do Partido dos Trabalhadores. Para o cristão, eles devem ser avaliados à luz do Evangelho, da doutrina de sua Igreja e das ações concretas de quem disputa o poder.

O eleitor católico não precisa aceitar que a preocupação com os pobres seja monopolizada pela esquerda, muito menos que a defesa da fé seja reduzida a uma disputa partidária. Caridade cristã não é sinônimo de marxismo, assim como justiça social não exige adesão ao socialismo.

A carta de Lula merece ser examinada com senso crítico. Na reta final da campanha, o essencial é que os católicos não confundam um apelo eleitoral com um compromisso comprovado com os valores cristãos.