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Sábado, 17 de outubro de 2026
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Lula minimiza terror das facções ao dizer que "criminosos só querem dinheiro" no Brasil

Petista tenta diferenciar o narcotráfico do terrorismo internacional, mas o avanço do controle territorial expõe a dimensão do poder paralelo imposto aos brasileiros

Foto: André Borges/EFE

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a rejeitar o enquadramento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas nos moldes defendidos pelos Estados Unidos. Em entrevista ao Jornal Nacional, na quinta-feira (15), Lula afirmou que as facções criminosas “só querem o dinheiro” e diferenciou a atuação desses grupos do terrorismo associado a ataques contra países e governos.

O argumento, porém, não elimina a questão central: o objetivo financeiro de uma organização criminosa não torna menos aterrorizante o método utilizado para conquistar e preservar seu poder. Facções que ameaçam moradores, impõem regras, expulsam pessoas de suas casas e submetem comunidades à violência exercem uma forma concreta de dominação sobre a população.

O Brasil enfrenta um problema que ultrapassa o tráfico de drogas. Em diversas regiões, grupos criminosos disputam territórios, controlam atividades econômicas, intimidam moradores e desafiam a autoridade do Estado. O resultado é a formação de estruturas de poder paralelo que, em determinadas localidades, assumem funções de coerção que deveriam pertencer exclusivamente às instituições públicas.

Ocupação territorial e um Estado paralelo

Os números ajudam a dimensionar o problema. Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em maio de 2026, apontou que 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais, o equivalente a 68,7 milhões de pessoas, afirmam perceber a presença de facções ou milícias nos bairros onde vivem. O levantamento também indica que a atuação desses grupos influencia diretamente a vida cotidiana de parte significativa da população.

Essa realidade não pode ser reduzida a uma discussão semântica sobre a motivação dos criminosos. Quando uma facção determina quem pode circular em uma comunidade, ameaça comerciantes, impõe cobranças ilegais e utiliza armas para intimidar moradores, há uma ocupação territorial sustentada pela força. A população deixa de usufruir plenamente da liberdade que deveria ser garantida pelo Estado.

É nesse cenário que ganha relevância o debate sobre a formação de um narcoestado dentro do Estado. A expressão descreve o risco de organizações criminosas consolidarem poder econômico, territorial e institucional suficiente para desafiar as autoridades, infiltrar-se em mercados legais e corromper agentes públicos. Não significa que o Brasil já possa ser classificado, de maneira definitiva, como um narcoestado, mas alerta para uma dinâmica que ameaça a soberania estatal e a liberdade dos cidadãos.

Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que as facções expandiram suas atividades para além do tráfico de drogas, alcançando mercados lícitos e ilícitos e desenvolvendo mecanismos de lavagem de dinheiro. O controle territorial também funciona como instrumento para viabilizar negócios criminosos, dominar rotas e ampliar a influência dessas organizações.

A discussão vai além do rótulo

Há uma distinção jurídica e conceitual legítima entre organizações terroristas motivadas por objetivos políticos ou ideológicos e grupos criminosos movidos predominantemente pelo lucro. O governo brasileiro sustenta que a legislação nacional sobre terrorismo não se aplica automaticamente às facções. Também argumenta que a classificação americana pode produzir consequências jurídicas, financeiras e diplomáticas.

Reconhecer essa diferença, contudo, não obriga o governo a minimizar a gravidade da ameaça. A finalidade econômica de uma facção não impede que seus métodos produzam terror social, nem diminui a urgência de combater seu domínio territorial.

A pergunta que permanece é simples: se o próprio presidente reconhece que essas organizações aterrorizam bairros e cidades brasileiras, por que a discussão pública deveria se limitar à motivação financeira dos criminosos?

O país precisa de uma estratégia capaz de recuperar territórios, asfixiar o financiamento das facções, combater a lavagem de dinheiro, impedir a infiltração em instituições e proteger os cidadãos submetidos à violência. Isso exige inteligência policial, cooperação entre os governos, fortalecimento das investigações e responsabilização dos integrantes das estruturas criminosas.

O debate sobre a classificação jurídica pode continuar, mas não deve servir de cortina de fumaça para a realidade enfrentada por milhões de brasileiros. Quando uma organização armada impõe suas próprias regras dentro do território nacional, o problema já não é apenas o dinheiro que ela deseja ganhar: é o poder que conquistou sobre a vida dos cidadãos.

A liberdade dessas comunidades depende da capacidade do Estado de retomar o controle e garantir que nenhuma facção esteja acima da lei.