Vorcaro interferia em reportagens do Metrópoles, indicam mensagens extraídas pela Polícia Federal
Conversas revelam pedidos de alteração, sugestões de pautas e interferência na cobertura jornalística em meio a contratos comerciais com o Banco Master
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal revelam que o ex-banqueiro tinha influência sobre reportagens publicadas pelo portal Metrópoles. Segundo apuração divulgada pelo UOL e pela Agência Estado, textos eram enviados previamente a Vorcaro, que solicitava alterações, sugeria pautas e, em determinadas ocasiões, pedia que conteúdos não fossem publicados.
A relação envolvia diretamente Lilian Tahan, CEO do grupo Metrópoles. De acordo com o levantamento do UOL, pelo menos 14 textos foram submetidos previamente ao empresário, dos quais 11 sofreram alterações após suas solicitações. As conversas também registram pedidos relacionados à cobertura de assuntos de interesse do Banco Master.
A aproximação entre as partes ocorreu em 2024, mesmo ano em que o banco firmou um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal, segundo a reportagem do UOL. A coincidência entre a relação comercial e a interferência editorial levanta questionamentos sobre a independência da cobertura jornalística.
Um dos episódios ocorreu em abril de 2025, quando Vorcaro contestou informações sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Master por R$ 1. Após o banqueiro questionar o conteúdo, Tahan respondeu que o texto seria retirado e discutiu com ele a forma como a informação deveria ser apresentada.
Em outro caso, Vorcaro pediu a retirada de uma referência à Hapvida em uma reportagem sobre a venda de ativos do banco ao BTG Pactual. A solicitação foi aceita. Ele também sugeriu mudanças em matérias sobre o Banco Central e Renato Gomes, então responsável por analisar a operação de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB).
As conversas mostram ainda que o empresário pediu à direção do portal que reduzisse temporariamente a cobertura sobre Ricardo Cappelli, crítico da operação envolvendo o Master e o BRB. Em outro episódio, uma reportagem sobre a Oncoclínicas deixou de ser publicada após Vorcaro manifestar oposição ao conteúdo, segundo relatos da imprensa.
A direção do Metrópoles apresentou como justificativa para o envio prévio de textos a prática de consultar fontes para verificar se as matérias refletiam o contexto informado. A CEO também contestou a existência de vínculo entre o contrato publicitário e a linha editorial do veículo.
O caso amplia o debate sobre os limites entre relações comerciais e independência jornalística. Quando um empresário retratado nas notícias pode sugerir pautas, modificar textos e influenciar decisões de publicação, torna-se essencial esclarecer quais mecanismos protegem a autonomia das redações e o direito do público à informação.




