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Sábado, 17 de outubro de 2026
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Política

Lula nunca sabe de nada e aposta que você também não sabe

Há mais de 20 anos, os escândalos cercam Lula, mas a responsabilidade nunca o alcança. Até quando o Brasil aceitará essa desculpa?

Presidente Lula
Presidente Lula Foto: Inteligência Artificial

Na sabatina do Jornal Nacional desta quinta-feira, 15 de outubro, Lula foi questionado sobre uma coincidência bastante conveniente. Depois de passar praticamente todo o mandato sem conceder uma correção geral ao Bolsa Família, seu governo anunciou um reajuste de cerca de 15% apenas 17 dias antes do primeiro turno.

Mas por que o presidente esperou a eleição se aproximar para lembrar das famílias que haviam perdido poder de compra para a inflação?

A resposta de Lula foi impressionante: “Eu não sabia”.

Segundo ele, ninguém o havia informado de que o Bolsa Família estava sem reajuste. Lula disse que só descobriu o problema recentemente e, ao saber, mandou aumentar o benefício porque havia espaço fiscal. A medida terá impacto estimado de R$ 5,8 bilhões ainda neste ano e de aproximadamente R$ 22,7 bilhões no próximo.

Estamos falando do principal programa social associado à imagem de Lula. Mesmo assim, o presidente quer convencer o país de que passou quase 4 anos sem saber que o benefício permanecia congelado.

Caso essa explicação seja verdadeira, Lula desconhece até mesmo as políticas usadas como vitrine de seu próprio governo. Caso seja apenas uma desculpa para esconder o caráter eleitoral do reajuste, ele está tentando tratar milhões de brasileiros como ingênuos.

Qual dessas alternativas inspira confiança suficiente para que a população entregue mais 4 anos de mandato a Lula?

Essa saída pelo desconhecimento (ou ignorância?) acompanha o petista há mais de 2 décadas.

Em 2005, quando veio à tona o Mensalão, o Brasil descobriu um esquema de pagamentos destinado a garantir apoio político no Congresso. O escândalo atingia o coração do primeiro governo petista e envolvia alguns dos homens mais poderosos do partido.

Lula também não sabia.

Ele afirmou que, se tivesse conhecimento, o esquema não teria acontecido. Mais tarde, o Supremo condenou 25 réus. Entre eles estavam José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, José Genoino, ex-presidente do PT, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro da legenda.

No ano seguinte, a Polícia Federal prendeu 2 integrantes ligados à campanha petista em um hotel de São Paulo. Eles carregavam aproximadamente R$ 1,7 milhão, parte em dólares, que seria usado para comprar um dossiê contra adversários do PT.

Lula chamou os envolvidos de “aloprados”. Depois explicou que o Brasil era grande demais e que um presidente não tinha obrigação de saber tudo o que acontecia em seu governo ou em sua campanha.

Até hoje, a origem completa daquele dinheiro continua cercada por perguntas. Lula, naturalmente, estava longe demais para saber.

Anos depois, surgiu o Petrolão. Diretores indicados politicamente para a Petrobras operavam um sistema de propinas alimentado por contratos da estatal. Empreiteiras pagavam vantagens indevidas, enquanto partidos e agentes políticos eram beneficiados pelo esquema.

Em depoimento prestado em 2017, Lula voltou a dizer que desconhecia as irregularidades na Petrobras e que não participava da escolha dos nomes do segundo escalão. Já em 2022, admitiu que houve corrupção porque existiam confissões. Até o fim de 2024, mais de R$ 7,4 bilhões haviam retornado ao caixa da Petrobras por meio de acordos, colaborações e repatriações relacionados à Lava Jato.

O padrão atravessou décadas. Quando as polêmicas apertam, Lula se transforma em espectador do próprio governo. Os subordinados decidem, o partido se envolve, o dinheiro circula, o escândalo explode e o presidente, com sua alma imaculada, descobre tudo pela imprensa.

Agora ele aplica a mesma estratégia ao Bolsa Família. A diferença é que, desta vez, o petista não tenta se afastar apenas de um escândalo. Lula, o "pai dos pobres", confessa desconhecer o funcionamento do programa que apresenta como símbolo máximo de seu compromisso com os mais carentes.

A aposta política é evidente. Lula espera que o eleitor saiba tão pouco quanto ele afirma saber. Espera que ninguém lembre do congelamento, que ninguém questione a proximidade da eleição e que um reajuste bilionário anunciado na reta final de um pleito seja recebido como generosidade espontânea.

Governar pressupõe conhecer, acompanhar e responder pelo que acontece. Um presidente não pode reivindicar os méritos de todas as políticas populares e, diante dos problemas, alegar que ninguém lhe contou nada.

Depois de mais de 20 anos, já não faz sentido perguntar o que Lula sabia. O Brasil precisa perguntar até quando aceitará ser governado por um presidente que nunca sabe de nada, nunca responde por nada e, ainda assim, sempre pede mais 4 anos para continuar mandando em tudo.

Lula pode continuar fingindo que não sabe. Mas o eleitor já sabe o bastante para decidir se ainda acredita nele.