Sob Lula, dívida externa supera US$ 407 bilhões e Brasil volta a ser devedor internacional
Endividamento externo cresceu 27,4% durante o atual governo, enquanto as reservas internacionais avançaram 15,8%; país perdeu posição de credor líquido mantida por 19 anos.
O Brasil voltou à condição de devedor internacional em 2026, após 19 anos mantendo uma posição de credor líquido. Dados do Banco Central (BC), divulgados nesta quarta-feira (21), mostram que a dívida externa bruta chegou a US$ 407,1 bilhões em junho, enquanto as reservas internacionais, somadas aos créditos brasileiros no exterior, totalizaram US$ 402 bilhões, equivalentes a aproximadamente R$ 2,045 trilhões.
Com a diferença entre os dois valores, a dívida externa líquida brasileira ficou positiva em US$ 5,1 bilhões. O resultado encerra o período iniciado em 2007, quando os recursos e créditos brasileiros no exterior superavam as obrigações externas do país.
Segundo informações publicadas pelo Diário do Poder, a dívida externa bruta alcançou o maior patamar em quatro décadas de registros estatísticos. O indicador reúne compromissos do setor público, dos bancos e das empresas brasileiras com credores estrangeiros.
Durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a dívida externa brasileira aumentou 27,4%, enquanto as reservas internacionais cresceram 15,8%.
A diferença entre os dois indicadores reduziu a margem que mantinha o Brasil na posição de credor internacional líquido. Entre os fatores que contribuíram para o crescimento da dívida está a entrada de investidores estrangeiros interessados em diversificar suas aplicações para além dos Estados Unidos.
O avanço mais moderado das reservas foi influenciado, entre outros fatores, pelas intervenções do Banco Central no mercado de câmbio e pela valorização do real.
Apesar da mudança na posição externa do país, a maior parcela do endividamento está concentrada em bancos e empresas privadas. Historicamente, esses agentes respondem por cerca de 73% da dívida externa brasileira e, em geral, possuem receitas em moeda estrangeira para cumprir seus compromissos.
Essa composição é importante para avaliar os riscos econômicos. O fato de a dívida externa bruta superar as reservas não significa, por si só, que o governo federal esteja sem recursos para honrar suas obrigações internacionais.
Pelos critérios utilizados pelo Tesouro Nacional e por agências de classificação de risco, como a Fitch, o governo brasileiro continua sendo credor externo líquido quando são consideradas especificamente as reservas e as obrigações do setor público.
Economistas e agências de classificação de risco não avaliam a atual situação como uma ameaça imediata à estabilidade econômica brasileira. A dívida externa líquida corresponde a menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto as reservas internacionais cobrem mais de três vezes os vencimentos da dívida de curto prazo.
Ainda assim, a perda da posição de credor líquido reduz uma margem de proteção construída ao longo de quase duas décadas. O cenário exige atenção principalmente diante do aumento do déficit em transações correntes, que chegou a aproximadamente US$ 67 bilhões em 2025.
Uma eventual redução dos investimentos estrangeiros diretos ou uma saída expressiva de dólares poderia ampliar a vulnerabilidade externa do país.
O quadro, portanto, combina dois fatores: o crescimento do endividamento externo durante o governo Lula e a manutenção de reservas que ainda oferecem proteção relevante contra choques de curto prazo. A evolução dos indicadores dependerá, entre outros elementos, da capacidade de atrair investimentos e financiar as obrigações brasileiras com o exterior.


