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Terça-feira, 3 de novembro de 2026
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Política

Boulos chama ajuste fiscal de “chantagem” enquanto dívida pública explode no governo Lula

Ministro critica a cobrança por controle de gastos, mas dívida pública chegou a 82,9% do PIB; debate expõe resistência do governo a um ajuste estrutural.

Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados

Guilherme Boulos (PSOL), ministro da Secretaria-Geral da Presidência, classificou como “chantagem do mercado” a pressão por medidas de ajuste fiscal no próximo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ministro criticou a cobrança por cortes de despesas e afirmou que a economia de recursos deve atingir privilégios, não políticas públicas destinadas à população de baixa renda.

A declaração ocorre em um momento de deterioração das contas públicas. Segundo os dados citados pela Revista Oeste, a dívida pública passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), no fim de 2022, para 82,9% em setembro de 2026, alcançando R$ 11,1 trilhões. O avanço representa uma elevação expressiva do endividamento durante o atual governo.

Em vez de apresentar um plano abrangente de contenção das despesas, Boulos direcionou o debate para três áreas: benefícios fiscais, emendas parlamentares e supersalários do funcionalismo público. O ministro afirmou que o Brasil concede quase R$ 600 bilhões anuais em desonerações e que as emendas parlamentares impositivas somam aproximadamente R$ 61 bilhões. Também defendeu uma reforma do Judiciário para enfrentar remunerações acima do teto constitucional.

Esses temas podem, de fato, integrar uma discussão sobre eficiência e controle do Orçamento. O problema está em tratar a cobrança por responsabilidade fiscal como uma ameaça à democracia. A preocupação com a sustentabilidade das contas públicas não equivale, automaticamente, a defender cortes em saúde, educação ou programas sociais. O país precisa discutir como financiar suas políticas públicas sem transferir continuamente a conta para o futuro.

O discurso de Boulos também acompanha uma reação mais ampla de integrantes do governo e do PT à pressão por ajuste. Nos últimos dias, aliados de Lula passaram a classificar as cobranças do mercado financeiro como chantagem, terrorismo e especulação. A ofensiva retórica desloca o debate das decisões do governo para os agentes que cobram explicações sobre a trajetória da dívida e a capacidade de pagamento do Estado.

A questão central permanece sem resposta: quais despesas serão efetivamente reduzidas e quais medidas impedirão que o endividamento continue avançando? Rever benefícios fiscais, emendas e supersalários pode fazer parte da solução, mas não substitui um plano consistente de controle dos gastos públicos.

O governo Lula assumirá um novo mandato diante de uma dívida elevada e de uma cobrança crescente por previsibilidade fiscal. Chamar essa cobrança de chantagem não resolve o desequilíbrio das contas, não reduz despesas e tampouco apresenta garantias de que o contribuinte não continuará pagando a conta por meio de juros, impostos e menor capacidade de investimento.

A responsabilidade fiscal não é uma exigência contra a população. É uma condição para que o Estado consiga manter serviços, financiar políticas públicas e evitar que o custo de decisões presentes recaia sobre as próximas gerações.