True Outspeak: o programa de rádio que fez o brasileiro voltar a enxergar a realidade
Programa semanal do professor e filósofo Olavo de Carvalho abriu espaço para que uma nova geração de brasileiros se libertasse da propaganda ideológica da esquerda
Quando o Brasil ainda nem sonhava com partidos, candidatos ou organizações de direita com expressão nacional, havia um homem na casa dos seus sessenta e poucos anos que resolveu expor suas ideias ao mundo e derrubar por completo o edifício ideológico da esquerda, a partir de sua própria casa, nos arredores de Richmond, no estado americano da Virgínia.
Olavo Luiz Pimentel de Carvalho não foi um homem de seu tempo. Ao contrário, foi um homem que superou, abrangeu e transcendeu a própria época. Foi um conector: ligou a história brasileira, por meio de sua obra filosófica, a um novo Brasil e possibilitou que uma nova geração de pessoas, reunidas pelo amor ao conhecimento, pudesse compreender a extensão dos problemas reais da nação e iniciasse um movimento de reconstrução, primeiro de si mesma e, mais tarde, da realidade ao seu redor.
Engana-se, porém, quem acha que o trabalho de Olavo de Carvalho ficou restrito ao debate político ou à sua capacidade única de desmascarar charlatões da mídia chique e da academia uspiana.
A abrangência e a influência de seu trabalho intelectual criaram espaço para que autores, obras e ideias fossem resgatados do ostracismo e voltassem a ocupar, ainda que de forma incipiente, seus devidos lugares dentro do debate público. Romancistas como José Geraldo Vieira e Octavio de Faria, excluídos do mercado editorial brasileiro durante décadas por representarem um risco à hegemonia intelectual da esquerda, voltaram a ter seus livros editados e lidos. Gustavo Corção e José Osvaldo de Meira Penna, dois dos grandes ensaístas brasileiros, voltaram a ser discutidos. Filósofos de envergadura universal como Roger Scruton, Louis Lavelle e René Girard foram apresentados com o devido destaque por meio de seu esforço. Como esses, há ainda uma centena de autores e livros que foram reinseridos na história da vida cultural do país.
Uma das expressões desse trabalho foi o True Outspeak, programa de rádio que Olavo transmitia pela internet e que se transformou em um dos mais importantes espaços de debate público da direita brasileira. A partir de sua residência na Virgínia, o professor estabeleceu uma comunicação direta com milhares de brasileiros, rompendo as barreiras impostas pelos grandes veículos de comunicação e pela estrutura universitária que, durante décadas, havia monopolizado a produção e a circulação das ideias pelo país.
O True Outspeak tinha uma característica que o distinguia de praticamente tudo o que existia no debate político brasileiro: Olavo não se dirigia ao público para oferecer respostas prontas ou palavras de conforto. Seu apelo era à consciência individual, à responsabilidade e à necessidade de compreender os acontecimentos para além das narrativas fabricadas pela mídia.
Era justamente na lógica dos fatos que residia a força de sua argumentação. Olavo percorria acontecimentos históricos, documentos, declarações públicas, contradições e pressupostos filosóficos para demonstrar aquilo que, muitas vezes, permanecia escondido sob camadas de propaganda e linguagem ideológica.
Havia também um aspecto fundamental em seu trabalho: o professor tratava seus ouvintes como pessoas capazes de pensar. Não pressupunha que o brasileiro estivesse condenado à ignorância política ou à submissão intelectual. Ao contrário, convocava cada indivíduo a abandonar a posição passiva de mero consumidor de notícias e assumir a responsabilidade pela própria formação.
O True Outspeak foi, nesse sentido, uma escola de independência intelectual, na qual milhares de pessoas tiveram o primeiro contato com autores, conceitos, acontecimentos históricos e instrumentos de análise que jamais haviam encontrado nos espaços tradicionais de educação e comunicação.
A consequência desse trabalho ultrapassou em muito os limites de um programa de internet. Abriu-se um novo espaço de debate no Brasil, até então praticamente inexistente, no qual a esquerda já não encontrava a mesma facilidade para estabelecer os limites daquilo que poderia ou não ser discutido. Uma geração começou a questionar seus professores, revisar suas referências, investigar a história do país e confrontar os discursos que lhe haviam sido apresentados como verdades incontestáveis.
É preciso compreender, entretanto, que a grande contribuição de Olavo de Carvalho não pode ser medida apenas pelo número de pessoas que passaram a se identificar com a direita ou pela quantidade de candidatos que chegaram ao poder nos anos seguintes. Seu trabalho apontava para uma transformação muito mais profunda e complexa: a reconstrução da inteligência brasileira. Afinal, uma nação que perdeu o contato com sua própria tradição, que desconhece sua história e que se acostumou a receber de terceiros as categorias pelas quais interpreta o mundo dificilmente conseguirá construir um projeto de futuro verdadeiramente independente.
Nada disso será feito sem o mergulho de pessoas interessadas na vida cultural do Brasil e do mundo. É preciso ler, estudar, conhecer a história, recuperar os grandes autores, compreender as correntes filosóficas e abandonar a superficialidade que transformou o debate público em uma sucessão interminável de disputas eleitoreiras. Não será por meio de eleições, campanhas ou da simples ocupação de espaços que construiremos um Brasil mais sério, mais inteligente e livre da manipulação esquerdista. A transformação política, para que seja duradoura, exige antes uma transformação intelectual e cultural. E essa tarefa começa no indivíduo, na sua vontade de conhecer, pensar e compreender a realidade.
