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Sexta-feira, 23 de outubro de 2026
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Infiltrados: Carta de bispos contra Flávio expõe ocupação revolucionária na Igreja

Carta de bispos contra Flávio Bolsonaro provoca debate sobre teologia da libertação, atuação política da Igreja e o alerta contra o comunismo.

Foto: Ricardo Stuckert

Uma carta assinada por bispos e arcebispos brasileiros às vésperas do segundo turno presidencial colocou novamente a hierarquia católica no centro do debate político. Divulgado em 22 de outubro, o documento afirma que uma das candidaturas representa uma ameaça à democracia, à soberania nacional e ao bem comum. Embora não cite nominalmente Flávio Bolsonaro, o texto deixa claro que suas críticas se dirigem ao candidato do PL.

O manifesto fundamenta sua crítica em temas como a escala de trabalho 6x1, o acesso a armas, a política ambiental, as relações com os Estados Unidos e a proteção social. Em relação à candidatura adversária, o documento reconhece a existência de críticas, mas destaca sua atuação em defesa dos pobres e dentro dos limites da ordem constitucional. O texto, portanto, não se limita a apresentar princípios religiosos: aplica esses princípios de maneira explícita à disputa eleitoral.

É justamente essa intervenção que abre espaço para uma discussão mais ampla sobre a atuação política de setores do episcopado. Quando autoridades religiosas passam da exposição da doutrina moral para a avaliação de candidaturas concretas, cabe questionar quais critérios são utilizados, se são aplicados de forma coerente e até que ponto a orientação pastoral se aproxima de determinadas correntes políticas.

Pio XI e o alerta contra a infiltração ideológica

Em 1937, na encíclica Divini Redemptoris, o papa Pio XI condenou o comunismo ateu e advertiu sobre estratégias de propaganda que, segundo ele, buscavam introduzir ideias comunistas em diferentes ambientes sociais, inclusive em associações católicas e religiosas. O pontífice também alertou para iniciativas que apresentavam objetivos aparentemente humanitários enquanto, em sua avaliação, serviam à difusão de uma ideologia incompatível com a fé cristã.

A advertência histórica é relevante para o debate contemporâneo. Ela recorda que a Igreja possui uma doutrina social própria e que a defesa dos trabalhadores, o combate à pobreza e a busca pelo bem comum não exigem a adesão ao marxismo ou a projetos revolucionários. Na perspectiva de Pio XI, a resposta católica às injustiças sociais deveria partir da dignidade humana, da lei moral e dos ensinamentos cristãos.

Essa discussão também aparece nas controvérsias sobre a teologia da libertação. O movimento reúne correntes diferentes, mas algumas de suas vertentes foram criticadas pela Santa Sé por recorrerem a categorias marxistas para interpretar a sociedade, a luta de classes e a missão cristã. A preocupação doutrinária não consiste em negar a obrigação de socorrer os pobres, mas em distinguir a caridade e a justiça social cristãs da adoção de uma estrutura ideológica incompatível com a fé.

A doutrina social pode ser aplicada seletivamente?

A carta dos bispos oferece um exemplo concreto dessa controvérsia. Seus signatários invocam a doutrina social católica para criticar propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro e apresentam uma avaliação mais favorável à candidatura adversária. O debate que se segue não precisa ignorar os argumentos expostos no documento, mas pode examinar se a mesma exigência moral é aplicada às políticas, alianças e decisões de todos os grupos políticos.

O episódio também mostra que a disputa eleitoral brasileira ultrapassa os programas partidários e alcança a interpretação pública da fé. Para os católicos, permanece uma questão fundamental: como defender os pobres e a justiça social sem subordinar a doutrina cristã às conveniências de um projeto político socialista?

A resposta exige leitura dos documentos, exame das propostas e distinção entre o ensinamento da Igreja e as posições particulares de seus representantes.